Para Vito Giannotti, comunicação sindical deve falar do “imediato” e do “concreto”, mas sem esquecer dos “interesses históricos dos trabalhadores”

O coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), Vito Giannotti, explica à Agência de Notícias da Fenajufe a sua avaliação sobre como está a comunicação dos sindicatos no Brasil e o que é preciso melhorar para “disputar a hegemonia” com a pauta dos trabalhadores

Italiano que chegou ao Brasil em 1966 e foi metalúrgico em São Paulo – tendo militado no Movimento de Oposição Metalúrgica de São Paulo (MOMSP) na década de 70 - Vito Giannotti atualmente se dedica, por meio do NPC, a cursos de formação para jornalistas e militantes sociais de esquerda e também a pensar a comunicação dos movimentos sociais. Autor de História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil e Comunicação Sindical: a arte de falar para milhões, entre outros livros, Vito participou do 1º Encontro Nacional de Comunicação da Fenajufe em 2001 e retornou ao 6º Encontro, realizado nos dias 10 e 11 de agosto, em Brasília, oportunidade em que falou para jornalistas e dirigentes da Fenajufe e sindicatos filiados. Mais de uma década do primeiro evento até esse mais recente, ele foi capaz de fazer uma análise precisa da conjuntura do movimento sindical e de como está a comunicação dita dos trabalhadores. Para ele, os sindicatos precisam investir em vários veículos de comunicação, aproveitando as novas tecnologias disponíveis, mas sem abandonar o jornal impresso. Além disso, a linha editorial deve dosar os temas específicos da categoria e os de interesse geral dos trabalhadores. “Falar do imediato, sim. Do concreto, sim. Mas ao mesmo tempo falar dos interesses históricos dos trabalhadores, de uma sociedade democrática, solidária, justa, ou seja, socialista”, defende Vito.

Confira abaixo a entrevista concedida à Fenajufe, depois do 6º Encontro Nacional de Comunicação.     

Vito, você tem acompanhado ao longo das últimas décadas a comunicação das entidades sindicais. Como você avalia esse setor hoje nos movimentos sociais e sindicais, do ponto de vista de estrutura e de conteúdo dos materiais produzidos? Você considera que houve avanço nos últimos anos?

Sim, claro que houve avanços. A internet permite milagres, seja para os conteúdos, seja para a forma dos nossos materiais. Mas não podemos nos iludir. Houve avanços e também tremendos retrocessos. Em 1990 tínhamos seis jornais sindicais diários. Hoje temos um e meio. Muitos jornais nossos passaram de semanais a quinzenais ou até mensais. E mesmo no campo da comunicação eletrônica há muito a fazer. Quantos sindicatos tem um boletim eletrônico DIÁRIO? A gente se escuda muito atrás da página, a famosa home page ou até da rádio web, ou TV web. Mas isso é muito pouco. Precisamos encarar o desafio de disputar a hegemonia com nossos inimigos. A hegemonia por enquanto é deles. E o primeiro passo para chegar a nossa hegemonia é o “convencimento”, diria Gramsci, isto é, a comunicação.

Falando especificamente dos sindicais do Judiciário e do MPU, pelo que você tem acompanhado, na sua avaliação, eles desenvolvem uma comunicação eficiente para a luta dos servidores ou ainda é preciso melhorar muito?

Acho que a Fenajufe, com seus sindicatos do Judiciário e MPU, tem feito muito esforço para ter uma comunicação capaz de defender os interesses da categoria. Basta pensar nos seis Encontros Nacionais de Comunicação que vocês promoveram. Mas, de novo, não vamos nos enganar. Nossa comunicação precisa não simplesmente ser eficiente. Precisa ser mais eficiente do que a deles. Deles quem? Dos neoliberais que determinam o pensamento geral na sociedade. O neoliberalismo domina não só a política brasileira como a mundial. A batalha é enorme. Precisamos convencer milhões de todo o contrário do que prega a ideologia dominante. Para isso, precisamos de muita luta social, com associações de todo tipo, sindicatos, federações, centrais, partidos dispostos a combater os fundamentos desta sociedade e construir outra totalmente diferente. Muita luta social e política e, para isso, uma comunicação que mostre e divulgue a necessidade e o caminho dessas lutas. Você pergunta se é preciso melhorar muito ainda nossa comunicação. Eu te diria, muito não, muitíssimo. Infinitamente.

Vários sindicatos vêm investindo consideravelmente nas novas tecnologias e em veículos de comunicação, como rádio e TV web e nas redes sociais. Sem dúvida, esses instrumentos têm contribuído muito para facilitar a comunicação com os trabalhadores, mas qual a sua avaliação em relação ao jornal impresso? Ele ainda continua sendo o principal meio de comunicação a ser utilizado pelas entidades sindicais?

As novas tecnologias são muito úteis, mas não há milagre. Sem uma comunicação intensíssima, DIÁRIA, com todos os meios, estaremos longe, anos luz de disputar a hegemonia com nossos inimigos. Eles têm rádios, TVs, jornalões, revistas, editoras e toda a mídia eletrônica. Nós precisamos exigir da sociedade política, do governo, tudo isso nas mãos do povo. Este é o fundamento da luta pela democratização dos meios de comunicação. Sabemos que, hoje, no Brasil, para ter uma concessão de rádio ou TV é só ser um cara de direita que facilmente será agraciado. É preciso uma mudança total nesta lógica. No mínimo como está acontecendo na Argentina e no Uruguay. Agora, enquanto não revolucionarmos completamente o sistema de concessões de rádio e TVs, podemos e devemos continuar a ter nossos jornais. O jornal é um forte instrumento para os trabalhadores comunicar suas ideias e disputar políticas. Mas, para isso, ele precisa existir, ser muitíssimo bem feito, escrito em português e não em chinês e ser distribuído. Além disso, há todo o capítulo do conteúdo, da pauta da nossa comunicação que merece uma longa conversa.  

Em relação à linha editorial dos materiais das entidades sindicais, você sempre alerta sobre a importância de não trazerem somente matérias específicas das categorias (do umbigo, como você chama), mas de assuntos gerais que abordam outros temas de interesse dos trabalhadores. Fale mais sobre essa sua avaliação.

Bom, isso depende de que sindicato estamos falando. Há sindicatos que são absolutamente dentro do sistema, completamente pelegos. Sindicatos que, quando muito, lutam por coisas imediatas, concretas, sem se importar minimamente com uma mudança radical da sociedade de exploração e opressão dos trabalhadores na qual vivemos. São sindicatos que só pensam no umbigo da categoria. Não querem saber da política geral. Não querem saber como vai a Educação, a Saúde, os serviços públicos. Não lhes interessa a luta pela Reforma Agrária, nem a situação dos índios ou dos quilombolas. Não estão nem aí. Para eles é só conseguir uns 10% aqui, uma melhora ali, um PCS amanhã e tudo vai bem. Machismo, racismo e tudo mais não são com eles. Estes sindicatos são muitos e são ótimos para manter o sistema como está. Para quem quer mudar a sociedade injusta de hoje e construir outra, justa e solidária, no caminho do socialismo, é preciso ter uma comunicação que dispute tudo com nossos inimigos. Ou seja, dosar os temas da nossa comunicação: falar do imediato, sim. Do concreto, sim. Mas ao mesmo tempo falar dos interesses históricos dos trabalhadores, de uma sociedade democrática, solidária, justa, ou seja, socialista.    

Abrindo um pouco mais o leque de atuação e indo para além dos sindicatos, como você vê a comunicação produzida pelo campo considerado de esquerda? Temos jornais, revistas e portais que deem conta das nossas demandas? Na sua avaliação, ainda temos o desafio de fazer o grande jornal de toda a esquerda brasileira? E na atual conjuntura, isso é possível?

A comunicação de esquerda está longe, longe, longe de responder ao desafio de construir outros valores, outra prática social, outro mundo do que o capital quer. Marx dizia, em a A Ideologia Alemã: “As ideias dominantes numa determinada época são as ideias da classe dominante”. A luta pela construção de uma outra sociedade é política, econômica, militar e ao mesmo tempo ideológica. Sem isso estaremos criando a ilusão de ter construído um Estado socialista.  O desfio de construir um jornal de esquerda é sempre presente. Não um, mas vários, três, quatro, com as várias visões existentes na esquerda. Jornal, quero dizer, JORNAL: diário. Se é possível? Com certeza é necessário. Já teve isso no Brasil, em 1905, 1919, 1946. Só que hoje não é só de jornal que precisamos. É de toda a mídia: jornal, revista, rádio, TV, blogs, facebook e tudo mais.

Você que participou do 1º e do 6º encontros de comunicação da Fenajufe, e também tem contato com o movimento sindical do Judiciário e do MPU, qual o recado você passaria aos jornalistas e dirigentes das nossas entidades?

Amig@s, vamos melhorar por mil nossa comunicação. Nossos inimigos, na lógica neoliberal, querem destruir todos os vestígios das conquistas e direitos dos trabalhadores, fruto de séculos de luta. Isso no Brasil e no mundo. É só olhar para a Europa, da Grécia à Portugal, da Espanha à Itália, da Irlanda ao próximo país vítima do neoliberalismo. Salários, aposentadorias, saúde, e, sobretudo, empregos estão sendo destruídos. E nós, no Brasil, não estamos na lua, nem em Marte. Estamos, neste momento, correndo o perigo imediato de ver a CLT cair por terra, virar uma peça de enfeite e em seu lugar entrar uma falsa “livre negociação”. A Rede Globo, Veja, Folha, Estadão, Correio Brasiliense e toda a mídia patronal apoiam este plano. Por isso, vamos comunicar, divulgar, disputar nossa política, até, um dia, ela ser hegemônica.

Da Fenajufe – Leonor Costa

Fotos: Joana Darc Melo/Fenajufe